A liderança, o grupo e a inovação

Héctor Rafael Lisondo

Introdução:

Exprimindo a maestria que o fez imortal, no episódio da batalha de Agincourt do drama Henrique V, Shakespeare nos faz deparar com a realidade interna e externa percebida por dois grupos diferentes prestes a encarar a situação real e inexorável de uma feroz batalha. Ambos os exércitos de homens temem o mesmo perigo, mas um deles, o dos ingleses, menos favorecido em número e recursos − cinco vezes inferior ao oponente e com os seus homens desgastados depois de uma penosa marcha pelos campos franceses−, consegue transformar a ameaça em vantagem e vence a batalha. Embora a ênfase da obra de Shakespeare esteja na liderança de Henrique V, também revela uma aguda intuição sobre o funcionamento dos grupos humanos, no que se refere à administração da realidade externa e interna e a seus reflexos na consecução dos seus objetivos. Pode-se entender, a partir da obra, que os soldados franceses atuaram como um grupo primitivo, desprovido de senso crítico, que, em sua arrogância, não levou em conta a realidade externa, entregando-se a fantasias de onipotência. Em um grupo tal, os indivíduos não se integram em torno de crenças transcendentes, que confiram orgulho e identidade, mas prevalece a ação individual, intempestiva, sem pensamento. O exército francês pagou o preço de ser dizimado pelo seu oponente. Já os ingleses comportam-se na batalha não como agrupamento de sujeitos, mas como equipe, um estágio evoluído do grupo. Sua desvantagem frente à superioridade numérica do inimigo é compensada pela coesão em torno de um ideal de nobreza e transcendência. O exército inglês não se mostrou um agrupamento de sujeitos perseguindo fins individuais, mas uma equipe sinérgica empenhada no objetivo comum, que não se circunscreve apenas à sobrevivência, mas também à glória. A mais notável diferenciação entre os dois grupos está no fato de que este último é mais capaz de pensar e assim planejar a estratégia da batalha para enfrentar o poderoso inimigo impossível, ao ler a obra, não associar a diferença entre os dois conjuntos à influência e excelência do líder, Henrique V, que lhes sinaliza o caminho para construir a sua identidade como grupo. Assim, chama-os de “irmãos”, inclui-se entre eles:

“Nosso exército, nosso feliz pequeno exército, nosso bando de irmãos; Aquele que hoje verter o seu sangue comigo Será meu irmão; por mais vil que seja…”

(Henrique V, 4º Ato, Cena 3).

A equipe, capaz de um feito tão extraordinário que sobressai na história da civilização, foi ajudada pelo seu líder a encontrar a sua identidade, vencer o medo e aproveitar o seu potencial. Carece tanto de sentido pensar no grupo sem incluir o líder, assim como pensar corpo sem a alma ou na transcendência do homem sem a mulher que é portadora da possibilidade de engendrá-lo. Não é somente no tempo de Shakespeare e nas circunstâncias da sua extraordinária obra que a liderança foi decisória, mas em todos os momentos em que os grupos são defrontados com sérias crises ou desafios. Nesse evento, Henrique V apelou a uma verdadeira inovação no campo relacional com os seus soldados. Ao contrário da cultura da época que, referida pela história, nos apresenta reis déspotas, autoritários e cruéis, mesmo com os seus soldados, esse líder consegue acender a motivação dos seus súbditos com uma abordagem notavelmente inovadora. Ao invés de ordenar, trata de compreender as fantasias que atormentavam as almas dos seus soldados. Na noite da véspera da batalha, disfarçado, visita os acampamentos para ouvir os soldados e assim avaliar, pessoalmente, o alcance de seus temores. Inspirado pelo que viu ─ e principalmente pelo que ouviu ─, dirige depois, aos corações dos seus soldados, o famoso discurso de São Crispiniano. Nesse discurso inflamado, Henrique V não mente para seus homens, negando, por exemplo, a possibilidade da sua morte, nem promete ouro e riquezas, mas um tesouro intangível: a honra, e junto com ela a possibilidade de que o seu sangue derramado se juntasse ao do seu líder, com quem se identificavam (Corrigan P., 2000). O dramaturgo nos deixa ver que foi a inovação na cultura− talvez a mais difícil das inovações−, e nesse caso na cultura do uso do poder, que possibilitou a conquista. Mas também fica claro que a inovação, tanto para o líder como para os liderados, não é uma proposta simples, pois envolve uma complexa interação entre fatores racionais, emocionais e relacionais. Este capítulo tentará alguma compreensão dessa complexa questão.

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ROGÉRIO YUJI TSUKAMÓTO

Prof. e coordenador dos programas de Gestão de Empresas Familiares (EAESP-FGV/SP); Prof. de Empreendedorismo, História Empresarial e Sucessão Familiar em programas executivos da USP, Fundace e INEPAD; Membro do IBGC Instituto Brasileiro de Governança Corporativa Mestre em Business Administration pela The Wharton School of the University of  Pennsylvania (EUA). Um dos mais renomados consultores, em planejamento sucessório para empresas familiares em diversos segmentos, como: Cosan, Petróleo Ipiranga, O Boticário, Tigre, Ajinomoto, ABERT (Rádio e TV), ABRAS (Supermercados), SindPetro e muitas outras. info@gestare.com.br

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